Na sequência da nossa proposta de abordar os personagens do Livro de Atos, hoje vamos analisar o papel de Téofilo, a quem o livro foi dedicado.
Nos artigos anteriores desta série — sobre o caminho de Damasco, sobre Barnabé e sobre João Marcos — exploramos figuras conhecidas do Livro de Atos.
Teófilo é mencionado no início do Evangelho de Lucas e no Livro de Atos dos Apóstolos como o destinatário da narrativa.
Agora, focamos em um personagem que, embora apareça apenas na dedicatória, tem importância estratégica na história e na teologia cristã.
O seu nome, do grego Theóphilos, significa “amigo de Deus” ou “amado por Deus”.
Essa simples menção abre espaço para grandes debates: teria ele sido um oficial romano influente ou um patrono de Lucas?
Outra opção, é que poderia ser um personagem simbólico que representaria todos os que buscam a fé?
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Quem foi Teófilo no Livro de Lucas
Teófilo surge logo no prólogo do Evangelho de Lucas (Lucas 1:3), onde é tratado como “excelentíssimo”, expressão usada para autoridades de alta posição, especialmente romanas.
Essa forma de tratamento reforça a teoria de que ele poderia ter sido um homem de prestígio, talvez um governador ou magistrado.
Outra possibilidade é que “Teófilo” seja uma designação simbólica, aplicada a qualquer crente ou buscador sincero — afinal, todo “amigo de Deus” poderia se ver como destinatário dessa mensagem.
Qual foi o papel de Teófilo

Independentemente de ter sido uma pessoa real ou um título simbólico, o papel de Teófilo foi fundamental: servir como receptor de um relato ordenado e cuidadosamente investigado.
Caso fosse um patrono, possivelmente financiou a obra de Lucas, permitindo que o Evangelho e o Livro de Atos circulassem entre as primeiras comunidades cristãs.
Por que Lucas escreveu o Livro de Atos para Teófilo
O Livro de Atos é a continuação direta do Evangelho de Lucas.
No primeiro versículo de Atos (1:1), Lucas escreve: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo…”, retomando a comunicação iniciada no Evangelho para narrar agora a ação do Espírito Santo e a expansão da Igreja.
O objetivo era claro: oferecer a Teófilo um registro histórico, confiável e teologicamente estruturado, mostrando que a fé cristã não era um movimento isolado ou sem fundamento, mas continuação do que Jesus havia iniciado.
Essa expressão “fiz o primeiro tratado” é um lembrete de que Lucas escreveu uma obra em dois volumes.
O “primeiro tratado” refere-se ao Evangelho, que documenta a vida e obra de Jesus.
O segundo volume, Atos, mostra como essa mensagem se espalhou através de apóstolos como Pedro, João e Paulo — incluindo eventos como a conversão de Paulo no caminho de Damasco.
A polêmica: Teófilo era sobrinho de Paulo
Na novela Paulo, o Apóstolo, exibida pela TV Record, Teófilo é apresentado como sobrinho de Paulo.
Não existe qualquer registro bíblico ou histórico dessa relação de parentesco.
Essa é uma licença criativa dos roteiristas para intensificar o drama e criar um vínculo familiar que aumente a proximidade do público com os personagens.
Ainda que essa abordagem não tenha respaldo textual, ela serve para aproximar Teófilo do núcleo central da narrativa, transformando-o de destinatário distante para alguém diretamente envolvido nos acontecimentos.
É também um exemplo interessante de como adaptações modernas preenchem lacunas da história bíblica para criar impacto emocional.
Claro, que esta ação inevitavelmente gera debates sobre fidelidade ao texto sagrado.
Lucas, mais que um autor, um personagem histórico
O evangelista Lucas é uma figura fascinante, um polimata, istoé, pessoa descrita como tendo aprendido muito e cujo conhecimento não está restrito a uma única área do saber humano.
Ele é descrito como sendo médico (Colossenses 4:14), historiador meticuloso e escritor com estilo refinado, ele não foi testemunha ocular de Jesus, mas investigou os fatos com diligência, entrevistando apóstolos e testemunhas.
A sua formação e o seu olhar clínico se refletem na precisão com que descreve curas, viagens missionárias e eventos históricos.
Companheiro próximo de Paulo em diversas viagens, Lucas esteve presente em momentos cruciais da expansão da igreja, e provavelmente escreveu parte de Atos durante períodos em que acompanhava o apóstolo de perto.
Sua ligação com Teófilo, seja de amizade ou patrocínio, ajudou a moldar uma das mais importantes narrativas do cristianismo.
Conclusão
Embora Teófilo não apareça diretamente atuante no Livro de Atos ao lado de outras figuras, no entanto, ele é o ponto de partida narrativo para que suas histórias sejam contadas.
Sem o “destinatário” que motivou Lucas, talvez não tivéssemos o registro detalhado desses eventos que marcaram a história da igreja primitiva.