O drama das famílias da Bíblia (as escolhas de Deus)

Acredito que você já viu a série da televisão brasileira de comédia a Grande Família. O programa foi criado por Oduvaldo Vianna Filho e Armando Costa que foi produzida e exibida pela Rede Globo. A série mostrava o cotidiano de uma família de classe média, seus conflitos, dramas e esperanças. Pois bem, dentro do plano divino todas as personagens bíblicas estão conectadas como se fosse uma grande rede social, é como se formasse uma Grande Família. De posse desta certeza, é de nosso interesse registrar o drama das famílias da Bíblia, hoje falando das escolhas de Deus.

A vida é cheia de escolhas difíceis entre muitas alternativas consideradas perfeitas. Segundo a Bíblia, Deus é confrontado com tais dilemas.

No plano humano há diversos fatores que leva a uma seleção, dentre eles, questões políticas, favorecimento pessoal e sentimentos. Os critérios de escolha humana quase sempre são baseados em subjetividade e em percepções terrenas.

É parte da grandeza das Escrituras Sagradas que coloca o problema de que Deus, assim como os seres humanos, também sente dificuldade de escolha para cumprir seu plano divino. Por exemplo, é dito que Deus aborreceu a Esaú e amou a Jacó.

Os critérios das escolhas de Deus

As escolhas de Deus não estão limitadas pelas realidades da fragilidade humana. Caso fosse assim, você conseguiria imaginar o resultado caso Deus fizesse escolhas baseadas na percepção humana?

Deus faz a melhor escolha dentre as tantas disponíveis. Deus não precisa exagerar a bondade de um ou destacar a maldade de outro para definir sua escolha. O Senhor não considera o passado do seu eleito, o que ele foi, o que fez, o que deixou de fazer, mas antes considera o que ele pode vir a ser e o que poderá vir a fazer.

Um pintor foi chamado para pintar um quadro do prestigiado militar e líder político inglês Oliver Cromwell, ocorre que Cromwell tinha o rosto verrugoso, o pintor omitiu este fato pensando agradar o retratado. Quando Cromwell viu o retrato disse: “Leva-o, e me pinte com verrugas e tudo”.

Dentro das perspectivas das escolhas de Deus

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A Lei apela para a capacidade do homem, a Graça se manifesta por causa da incapacidade total do homem

Os antagonismos dos personagens bíblicos estão bem evidentes quando eles estão dentro das perspectivas das escolhas de Deus. Quão diferentes são Caim e Abel! Ismael e Isaque também têm personalidades distintas. Jacó e Esaú são muito diferentes entre si. Um abismo separa Saul de Davi. Nossos destinos refletem nossas escolhas, nossos atos apontam as consequências de nossas decisões.

Deus não é como o homem que avalia defeitos e qualidades no processo de escolha. O homem conta com o julgamento do passado e o presente para basear suas escolhas. O Senhor ao contrário, sendo Senhor do Tempo conta com o passado, presente e futuro para compor suas escolhas. Mais, Ele conta ainda com a onipresença, onipotência e onisciência no seu processo seletivo.

Mais acima afirmei que Deus não considera o passado da pessoa a quem Ele escolhe, quem foi, e o que ela fez, mas é de suma importância que ela a despeito de todas as suas falhas morais tenha o coração predisposto a se arrepender, a seguir os conselhos do Altíssimo, a interagir com Ele.  É justamente o que aponta os relatos bíblicos.

Deus escolhe homens que tenham a tendência de serem espirituais. O Soberano quer homens que estejam dispostos a ter compromisso com o Reino de Deus. O Deus de Jacó sabe das complexidades dos homens, entende as fraquezas humanas. Se não fosse assim ele teria escolhido a Esaú ao invés de Jacó, pois em termos morais Esaú era superior a Jacó.

Como explicar que Deus tenha escolhido a Isaque em detrimento de Ismael? Isaque era um sujeito passivo e inseguro, ao passo que Ismael era destemido e valoroso guerreiro. Mas Deus nunca poderia ter escolhido a Ismael, uma vez que Ele não aceita interferência no seu processo de escolha.

Deus escolheu a Abraão

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O Senhor não considera o passado do seu eleito, o que ele foi, o que fez, o que deixou de fazer, mas antes considera o que ele pode vir a ser e o que poderá vir a fazer.

Deus havia prometido a Abraão que da sua descendência formaria uma grande e prestigiosa nação que serviria de referência a todas as nações da terra. Abraão não esperou o tempo de Deus e procurou ter um filho através de sua serva Agar, ele quis dar uma ajudazinha a Deus.

Abraão gerou Ismael aos 85 anos, isto é, com a força que ainda tinha. Ismael segundo o apostolo Paulo nasceu “segundo a carne”. Agar representa o pacto antigo e Ismael os filhos escravos deste pacto. Quinze anos depois com Abraão em idade avançada e Sara já tendo passado a idade reprodutiva, nasce Isaque.

Ismael foi o filho que Abraão gerou, Isaque é o que filho que Deus lhe Deus, é o filho eleito segundo a graça. A força e disposição para a luta, tão característica de Ismael consiste no que o homem pode fazer. Dito de outro modo, a Lei consiste no que o homem pode fazer, a graça consiste no que Deus dá. A Lei apela para a capacidade do homem, a Graça se manifesta por causa da incapacidade total do homem. Deus é como a flor que não depende do homem para exalar sua essência.

A impetuosidade e impulsividade de Esaú fascinavam o insosso Isaque, fazendo com que Esaú fosse mais querido e estimado pelo pai.  Rebeca, a mãe, ao contrário nutria preferência por Jacó, talvez devido ao fato de que Jacó sendo caseiro estava sempre por perto. Você notou que do pouco que expomos sobram muitos conflitos familiares que expõe intensos dramas familiares?

Esaú e Jacó, dimensões conflitantes

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Nossos destinos refletem nossas escolhas, nossos atos apontam as conseqüências de nossas decisões.

Esaú e Jacó são representados como lutando desde o ventre materno, com cada um deles simbolizando dimensões conflitantes de poder e autoridade. O elemento comum que une a ambos é a tremenda energia que ambos demonstram. Esaú emprega toda a sua energia para satisfazer seus interesses imediatos (veja o caso do prato de lentilhas), para dar vazão a sua carnalidade. Sendo de natureza terrena, Esaú vai lutar com homens e pelo domínio da natureza.

Jacó na primeira metade de sua vida lutou intensamente para obter vantagens pessoais, ele tem consciência de suas limitações e sabe que é um miserável, um enganador, mas se esforça pra deixar para trás sua natureza pecaminosa. Felizmente Jacó deixou que o velho homem fosse crucificado.

A transformação começou quando ele reconheceu a presença de Deus no episódio da Escada de Jacó. Antes, Jacó confiava apenas na sua astúcia, na sua capacidade de ludibriar, agora ele registra um voto, deposita sua confiança nas mãos de Deus.

Por ora, vamos desviar o olhar de Jacó e Esaú e lembrar dois outros personagens dos quais já citamos mais acima, Caim e Abel. Ambos fazem ofertas para o Senhor. A oferta de Abel foi aceita, a de Caim recusada. Caim ficou extremamente irritado e se interpôs com Deus que lhe disse que a razão da recusa era sua conduta que não era aprovada. O Altíssimo o lembra que caso ele mudasse de sentimentos e fosse pelo caminho da retidão, sua oferta seria aceita.

Houve uma evolução, primeiro o conflito com Abel, o ódio acumulando com a recusa da oferta, o ressentimento contra o irmão e por fim o assassinato. A atitude negativa de Caim é reconhecida pelo apostolo Judas como O caminho de Caim por onde muitos entram e se perdem. O caminho de Caim implica distanciamento de Deus, o fratricida fez a sua opção.

O abismo que separa Davi de Saul

Os Salmos 42 é o grito de um homem longe da liturgia da Casa de Deus, homem desafortunado que deseja intensamente a renovação da presença divina. Este homem é descrito lutando com suas dúvidas e temores, mas mantendo a sua esperança no Deus vivo.

Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim. Sl 42. 7

Engana-se quem pensa que Saul foi escolhido por Deus para governar a Israel, esta fora uma exigência do povo. Samuel ungiu a Saul rei, julgando que ele seria bem aceito pelo povo, por ser de boa linhagem e de excelente porte físico. Saul estava rei, mas o máximo que ele conseguiu foi inflar o peito de orgulho, tornar-se senhor de si. Saul passou a ter uma crença inconteste em suas pretensas qualidades, vivendo um destrutivo sentimento de posse.

Que diferença em relação a Davi. Enquanto houve arrependimento de Deus em ratificar a escolha de Saul por parte dos anciãos e líderes de Israel, de Davi é dito que era um homem segundo o coração de Deus. Por ser tão senhor de si era custoso para Saul reconhecer erros ou admitir fracassos.

O abismo que separa Saul de Davi é a capacidade de arrependimento, de deixar-se conduzir ao arrependimento. Saul confiava em sua autoridade, para ele não fazia muita diferença se Deus respondia ou não.

Os propósitos das escolhas de Deus

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As escolhas de Deus baseiam-se na imperiosa necessidade de redenção da humanidade

As escolhas de Deus baseiam-se na imperiosa necessidade de redenção da humanidade. A história dos dois irmãos, Esaú e Jacó, é um clássico exemplo desse dilema e como Deus o enfrenta. Deus traçou um plano de redenção do homem, indo de Abel até Cristo.

A oferta de Abel prefigurava Jesus sendo o Justo, ele ofertou de bom coração, Caim ofertou maquinalmente, como se fosse uma obrigação religiosa. Isaque foi escolhido por sua disposição de obedecer prontamente sem questionamentos. A presciência de Deus viu a Jacó como aquele que seria a descendência da promessa.

A expressão “amei a Jacó” diz respeito ao surgimento das doze tribos e sua participação no plano divino. Aborrecer a Esaú não quer dizer necessariamente que Deus odeia indivíduos, mas que aborrece suas atitudes. Deus se aborrece com aqueles que não valorizam as suas promessas, é o caso de Edom.

A síndrome dos homens xucros

Estamos prestes a finalizar nossa reflexão, antes algumas considerações a respeito da síndrome dos homens xucros. Xucro tanto pode ser referente a pessoas rudes, quanto a animal de sela não devidamente domesticado. Aqui daremos outro significado.

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Caim, Ismael, Esaú e Saul padecem da síndrome dos homens xucros, que é a incapacidade de compreender os desígnios de Deus. E por que são incapazes? Simples, todos eles eram homens intimamente ligados a terra, ao campo. Todos eles preferiam o vento das campinas em detrimento dos ventos das mudanças de Deus.

Todos buscavam amplos espaços abertos, desprezando os insondáveis mistérios do Altíssimo. Eles viam a obediência a Deus como o mais terrível dos jugos. Deu no que deu. Deus é de compromisso, de zelo, de aliança, de entrega total.

O drama das famílias da Bíblia (as escolhas de Deus)

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