Estamos justificados, mas será que estamos perdoados?

Lendo o livro de sermões de John Piper “Provai e Vede”, nos deparamos com uma mensagem com o subtítulo: “A diferença entre a ira judicial e o desprazer paternal.” Muitos de nós podemos estar vivendo esse dilema. Sabemos que somos perdoados, mas não sentimos o perdão de Deus. Alguns já se acostumaram com a falta da presença de Deus, ou nunca a tiveram e para esses pode estar parecendo normal o que é anormal.

Notando a progressão da revelação de Deus na sua Palavra, partindo nessa aventura de Gênesis, ao chegarmos em Efésios, poderá causar-nos surpresa que a vontade de Deus seja que todos sejamos cheios do Espírito Santo de Deus. Jesus em muitos sentidos frustrou e continua frustrando tantos outros que interpretaram a Bíblia a seu bel prazer. Quando a sombra deixou de ser sombra e raiou a verdadeira luz, muitos não a compreenderam.

Para piorar a situação, o Evangelho de hoje não ajuda em nada. Enquanto estivermos voltados para mensagens antropocêntricas e não teocêntricas, onde o homem é o foco e as suas necessidades e não Deus, haverá uma falência espiritual.

Enquanto houver sinais de arrependimento, ainda haverá solução para o suplicante, mas quando o individuo, agora com o coração endurecido, não enxerga mais motivos de arrependimento e a quebra dos Mandamentos de Cristo for uma constante, então não resta muito o que se fazer.

Os dois novos mandamentos

“E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” Mt 22. 37-40

Inquirido sobre qual era o grande mandamento da Lei, Jesus resumiu a Lei em dois Novos Mandamentos: Amar a Deus e amar o próximo como a si mesmo. O que acabamos notando insistentemente é um ativismo na igreja, onde existe muita correria, mas não conversão genuína.

Paulo nos ensina algo difícil de fazer: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.” (1 Co 5. 11) Esse irmão pecador aqui descrito, é símbolo de um crente não convertido. A leitura correta desse versículo, ultrapassa em muito essas poucas características.

Como vemos em Apocalipse, Jesus anda no meio dos candelabros, que são a igreja. Apocalipse acusa que na Igreja tem aqueles que deixaram o seu primeiro amor. Os que adoram ídolos. Os que praticam prostituição. Os que tem apenas a aparência de estarem vivos espiritualmente, mas estavam mortos para Deus; e aqueles que tinham a necessidade premente de se arrependerem.

Uma forma prática de observar se o crente está em Deus é como ele reage para com Deus e para com o próximo. Alguém que aparenta estar na presença de Deus, mas que despreza o seu próximo, pode estar muito enganado a respeito de si mesmo. Vemos muitos crentes ultimamente, sem testemunho cristão, porque não tem vida com Deus, mas uma ilusão, baseada no passado.

Justificados, mas não perdoados

justificados

Na nossa época muito perdão está sendo liberado, mas apesar de que os ministros estão ali liberando o arrependimento, não está acontecendo uma confirmação do Espírito Santo para muitos. Temos visto um desnível enorme na igreja, onde no mesmo culto uma parte da igreja está visivelmente cheia do Espírito Santo, enquanto a outra parte está seca.

Uma parcela de culpa desse fenômeno é causada pelo Evangelho pregado hoje em dia, onde uma nova interpretação atualizada da mensagem bíblica, acaba desvirtuando o sentido original.

Esse baixo Evangelho, ou sub-Evangelho é pregado por sacerdotes que ao invés de serem pontes para Deus, querem a fama para si. Vemos sacerdotes requerendo a glória para si e não levando os homens a Deus. A crise do púlpito causa uma crise interna, pessoal, ao membro da igreja, que sem parâmetros carecendo de perdão divino. Muitos sacerdotes e seus supostos evangelhos acabam afastando cada vez mais o povo de Deus.

O sentido da pregação seria o ministro explicar Deus para o mundo. O mundo é que precisa se enquadrar na Palavra através da pregação. Aprendemos muito cedo que é a Palavra que vai dar testemunho de nós, ou nos salvando, ou nos acusando. Como pergunta o Pastor John Piper: Como podemos ser justificados pela fé e, apesar disso, precisarmos continuar confessando nossos pecados todos os dias, para que sejamos perdoados? Paulo já nos explicou que somos perdoados:

“Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.”

Como descobrir que estamos perdoados?

Judicialmente, como vemos, somos considerados justos e nada pode mudar isso. O problema é que podemos ser justificados da ira judicial, mas ainda estarmos inseridos no desprazer paternal. Justificados sim, perdoados não. Sabemos que não estamos perdoados, quando o Espírito Santo não flui. É muito simples. Se o Espírito não flui, não estamos perdoados.

Na primeira carta para a Igreja em Apocalipse, Jesus acusa que eles tinham perdido o primeiro amor. O que será que causou essa perca em alguns irmãos, que mesmo hoje, aparentando estarem vivos estão mortos? O que será que causou isso a ponto de se fazer hoje uma obra no automático para Deus, que não passe de ativismo que não leva para o Céu?

Será muito triste aquele dia onde perante Jesus alguns tentarão se justificar dizendo que no Nome de Jesus pregaram, ministraram e oraram pelos doentes e Jesus responder que não os conhece e os mande se afastar.

Na mente de Paulo a justificação incluía o perdão, contudo o perdão continuo depende da confissão de nossos pecados:  “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9). Confessar continuamente faz parte de andar na luz.

Deus perdoa os pecados dantes cometidos

Thomas Watson, importante pastor da Idade Média nos fala que percebeu que Deus perdoa todos os nossos pecados, mas que esses pecados eram referentes aos pecados passados, e não os pecados ainda não cometidos. Pois um pecado não cometido carece de arrependimento, para ser perdoado. Os pecados por vir são perdoados somente quando nos arrependermos deles. Ele dizia achar absurdo pensar que o pecado era perdoado antes de ser cometido. Rm 3. 25-26

Essa fala pode conflitar com o que alguns imaginam de Bíblia, pois entendemos que na Cruz todos os nossos pecados já estão perdoados. O problema é que se todos os pecados já estão perdoados, então, alguém poderia imaginar, se eu praticar o pecado já estarei perdoado, uma vez que sou cristão. Nós sabemos não é bem assim.

Deus perdoa através do arrependimento. Para que haja perdão, há de ser necessário um arrependimento verdadeiro, um voltar-se dos caminhos que andava e seguir em nova direção, como é o sentido real do termo Arrependimento. Arrependimento não é chorar, ou se lamentar, mas andar em caminho diferente, fazer diferente.

A opinião de que os pecados passados ou futuros já estão perdoados, anula a intercessão de Cristo. Ele é um advogado que intercede pelos pecados cotidianos. (1 Jo 2. 1) Falas como a de 1 João, seriam desnecessárias, se não houvesse a necessidade do arrependimento.

Quando então obtemos o perdão

Watson chega a conclusão que os pecados vindouros não são perdoados, enquanto não há arrependimento renovado. O que ocasiona a seguinte pergunta: Quando então obtemos o perdão pelos pecados que cometemos? Essa pergunta significa: Quando o perdão foi comprado e garantido para nós? E quando o perdão será aplicado a cada transgressão, de modo que remova o desagrado de Deus? Na primeira pergunta a resposta é na Cruz.

Na segunda pergunta a resposta é na renovação do nosso arrependimento. Essa tristeza de Deus, contudo não é a ira judicial, mas o desprazer do Pai com o filho desobediente. Apesar de o filho de Deus ser justificado, ainda assim ele pode estar em desagrado com o Pai que está no céu.

Deus vê os nossos pecados como “cobertos” e não “imputados”: “Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.” Rm 4. 7-8

A idéia de pecado coberto vem de Gênesis, onde um animal inocente morreu para cobrir a nudez de Adão e Eva. O Sacrificio de Cristo na Cruz encobre o pecado, onde Deus vê o Sangue de Jesus sobre nós e não os nossos pecados. O Sangue de Jesus é a nossa cobertura mais que perfeita contra o pecado.

O pecado encoberto é o pecado escondido, que não apresentei a Deus e não me arrependi. Que também posso ou não estar praticando. Pode ser que um dia houve o pecado e nunca houve um arrependimento real a respeito daquilo. E imputar é um termo econômico que significa “colocar isso na sua conta”. Ou seja, o pecado encoberto, nunca apresentado, nunca arrependido, pode estar imputado, agregado à minha conta.

Deus quer um arrependimento verdadeiro

Deus está comprometido em nos trazer a um arrependimento verdadeiro. O Pai deseja ardentemente restaurar-nos à sua presença, à sua satisfação, tantas quantas forem as vezes que se achar necessário. Até que essas restaurações não sejam mais necessárias. Deveríamos sentir toda a nossa miserabilidade humana, mas a Igreja está perdendo o temor a Deus, o amor está esfriando. As mensagens são de indiferença, no tempo de guerra.

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O temor a Deus é originado no medo de Deus. O medo de recair na ira divina traz a nós o temor, o respeito e a gravidade. Precisamos ser incomodados a respeito do pecado não confessado. Deus tem para a Igreja uma vida abundante, que muitos de nós nunca vivenciamos.

Estamos justificados, mas será que estamos perdoados?

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